segunda-feira, 19 de outubro de 2015

URGENTE: Mano velho

O que seria URGENTE para você no dia de hoje? 

Pense no assunto, só continue a leitura quando tiver a resposta. Porque muitas vezes, na correria do dia, essa será sua única oportunidade para pensar nessa urgência.

Será que você consegue dar conta hoje dessa urgência?

E porque nove em dez pessoas reclamam da falta de tempo?

Mas o tempo não é o mesmo para todos?


* * *

Semana passada recebi um e-mail de um colega de trabalho. Ele começava o assunto com um garrafal <URGENTE>, mas por "coincidência", eu estava preparado para essa situação.
 
No programa de e-mail que usamos no trabalho, existe um recurso chamado "aviso de leitura", algo parecido com o "azulzinho" do whatsapp, que indica quando a pessoa leu o e-mail.
 
Por que as pessoas acham que esse recurso "<URGENTE GARRAFAL>" poderia influneciar alguém a priorizar qualquer atividade?
 
Quando recebi a mensagem, sequer me dei o trabalho de abri-la, por três motivos:
 
1) O que é urgente para um, não é para outro;
2) Se fosse realmente urgente, iria receber uma ligação, ou uma visita pessoal, e não um e-mail. 
3) Estava vacinado para isso, tinha lido dois textos preparatórios na semana, que compartilho agora com vocês.

O primeiro é um texto lindo (poesia em prosa) da @claricefreiree sobre o tempo, e o segundo, uma reflexão do site momento.com.br sobre o que é urgente. Vou transcrever os textos aqui, pois se  colocasse apenas o link, muitos não iriam buscá-los...Vamos lá!


Texto 1
 

O senhor do meu tempo (dos outros)
 

Tive um relógio que custou dez reais. É. Dez reais. Adoro coisa barata. O problema é que eu teria que ser uma criatura cuidadosa para que isso garantisse alguma durabilidade aos meus pertences. Mas sou tão cuidadosa quanto um hipopótamo diante da seção de cristais em uma loja de antiguidades. Ou uma vaca correndo, como me comparou poeticamente o meu pai, ao me ver esbarrando em todos os objetos da casa. As coisas não duram muito comigo. Graças a Deus estou falando apenas de coisas.

O meu relógio, voltemos a ele, que já foi dourado, agora tinha um charme desbotado só seu – óbvio. 

Quem mais derramaria águas e perfumes em cima dele quase todos os dias sabendo que não é à prova nem de lágrimas? Mas quem é à prova de lágrimas? Que exigência terrível! — e ele parou de funcionar.

“Foi a bateria”, pensei com esperança. Não queria me desfazer dele. Era cedo demais. Fui até o relojoeiro mais próximo de casa e entreguei meu tesourinho saído do pulso. Havia uma mulher, um jovem e o senhor que usava um jaleco e óculos na ponta do nariz. Um jaleco. E ele examinava minuciosamente o meu relógio com uma cara estranha. Imaginei que ele estivesse pensando “qualquer coisa que eu fizer aqui vai ser mais cara que isso”. Já formulava uma resposta desaforada, meio nervosa, quase perguntando “é grave, doutor?”.
 
Mas ele não parecia desprezar meu relógio pelo preço. Pelo contrário. Parecia respeitá-lo e tinha a delicadeza de alguém que manuseia pétalas de uma rosa.
 
Uma coisa tão estranha.
 
Comecei a ficar hipnotizada com os nós dos dedos nodosos daquele senhor quase careca. Pareciam mesmo saber controlar o tempo.
 
Ele controlava o tempo.
 
Agora eu já fazia uma lista de pedidos pessoais ao senhor e pensava como persuadi-lo a me atender.
 
Para ganhar tempo (ou perder?) olhei em volta. Não havia ainda parado para observar a loja ao meu redor por estar preocupada demais com o funcionamento – ou não – do meu contador de minutos. Quantos e quantos relógios espalhados. Nem uma brecha em nenhuma das paredes, só relógios. Modernos, de madeira, antigos, analógicos, digitais, rebuscados, simples, ocupando todo o espaço. No balcão, peças: pulseiras, ponteiros, vidrinhos. Tudo ali girava em torno do tempo que girava e girava através dos ponteirões do relojão à minha frente.
 
Nenhum relógio marcava a mesma hora. Todos tinham uma hora só sua. Um tempo só seu. Seriam correspondentes aos seus donos? Cada um tem seu tempo, me ensinaram. É verdade.
 
Vi o quanto, de fato, ele é relativo.
 
Voltei para o doutor do meu. Notei que os funcionários não faziam nada sem perguntar a ele que, ao sussurrar algo inaudível sem tirar os olhos do meu relógio, os outros colocavam em prática. Um verdadeiro senhor do tempo. Agora eu respeitava ainda mais o ancião carequinha.
 
O senhor do tempo não tinha preconceitos, respeitava o tempo de cada um, não havia mudado nenhum. Tratava com louvor o meu tempinho pobre e de brilho cansado.
 
O senhor do tempo ignorava qualquer outro apressado com seus contadores de segundos nas mãos, esperando sua vez, porque aquele tempo era meu. E não valia nem dez reais, mas o senhor do tempo não estava preocupado com preço, só fazia um balé com as mãos, cheio de apreço.
 
O senhor do tempo levantou os olhos por cima dos oclinhos de meia-lua para mim. Muito sério. Esperei o veredicto.
 
— Olhe, senhorita, posso trocar a bateria, é só esse o problema. Mas a pulseira não dá, nem posso melhorar o brilho, isso só em uma autorizada.
 
— Autorizada? Mas, senhor, essa bugiganga não vale nem dez reais.
 
Ele olha para baixo meio divertido.
 
— Eu sei.
 
—  Por que disse isso?
 
Perguntei sorrindo sinceramente.
 
— Porque você o trouxe pra mim, então se importa com ele, não é? Não ia tratá-lo como qualquer coisa na sua frente. Vai saber. Também não tenho a pulseira, me desculpe. Você quer a bateria? Custam quinze reais.
 
— Sim, por favor.
 

Ele agora sorria para dentro. Era um homem de pouquíssimas palavras. E lá foi ele fazer uma pequena cirurgia e colocar um novo coração dentro do meu tempo, que saiu muito disposto da relojoaria, pronto para me mostrar perfeitamente a minha vida passando rápido, voando, por dentro dele. E que, por favor, eu tivesse a fineza de respeitar —delicadamente bem — o tempo dos outros ponteiros.


Texto 2
O que é urgente?

Se você tivesse que enumerar, neste instante, todas as suas urgências, o que é que constaria em sua lista?

Talvez tenha na memória os compromissos mais urgentes de hoje, ou já tenha dado uma olhada na agenda e constatado que eles são muitos e quase todos importantes.

Todavia, antes de começar a correria costumeira do seu dia, vale a pena refletir mais detidamente no que é realmente urgente.

A vida agitada dos dias atuais nos leva a estabelecer uma lista de urgências que nos faz, tantas vezes, perder o significado real do que são prioridades.

Para algumas pessoas, urgente são somente as coisas materiais, esquecidas de que, no dia em que partirem, deixarão pendentes as coisas que realmente eram urgentes.

Para melhor avaliar o que sejam prioridades de fato, verifique sua lista e anote tudo o que terá que ficar na alfândega do túmulo, caso tivesse que partir agora.

Sem desconsiderar as necessidades materiais que a vida no corpo físico exige, é necessário estabelecer prioridades também no campo afetivo, junto às pessoas que estagiam conosco nesta existência.

Urgente, por exemplo, é que você pare um momento na sua vida agitada e se pergunte: Que significado tem tudo isso que faço?

Urgente é que seja mais humano e mais irmão.
 
É que saiba valorizar o tempo que pede uma criança.

Urgente é que veja o nascer do sol, sinta o seu calor e agradeça a Deus por tão grandioso presente.
 
É saber aproveitar as lições do dia a dia da melhor forma possível, em benefício do progresso do Espírito imortal, que transcende a vida física.
 
Urgente é que curta a sua família, seus filhos, sua esposa e todos que o rodeiam, e valorize esse precioso tesouro.
 
Urgente é que diga às pessoas que lhe são caras o quanto as ama e o quanto são importantes para você.
 
Urgente é que saiba que é filho de Deus e se dê conta de que Ele o ama e quer vê-lo sorrindo, feliz e cheio de vida!

Urgente é que não deixe a vida passar como um sopro e, quando estiver no fim da linha, não olhe para trás como quem quer voltar e percebe que já não há tempo...
 
Já não há tempo porque tudo o que fez foi urgente...
 
Você foi um grande empresário, encheu sua agenda de urgências, compromissos e projetos... mas se esqueceu de viver.
 
Foram tantas as urgências que deixou passar a verdadeira finalidade da existência, que é aprender a amar. É desenvolver o amor por si mesmo e estendê-lo ao seu próximo.
 
Por todas essas razões, reveja sua lista de urgências e priorize aquelas que são realmente importantes.
 
Faça isso hoje... Não deixe para amanhã.

Se faz muito tempo que não almoça ou janta em casa para atender aos negócios, pense que sua família deve ser a prioridade número um da sua lista.
 
Você lembra quantas vezes evitou o abraço carinhoso de um filho, para não amarrotar ou sujar a sua roupa, que deveria estar impecável para a próxima reunião?
 
Lembra-se a quantas festinhas na escola de seu filho deixou de ir por causa das suas urgências profissionais?
 
Pare um pouco e veja se não há nenhuma inversão de valores em suas urgências. E se constatar alguma irregularidade, ainda é tempo de reverter a ordem das coisas.
 
Se você está enfermo, sua prioridade é tratar da saúde.
 
Se está estressado, sua urgência é buscar um meio de sair desse estado.
 
Mas, se você sente um grande vazio na alma, nada do que tem feito lhe faz feliz, a depressão ameaça se instalar e nuvens cinzentas pairam sobre seu mundo, você está diante de uma emergência.
 
Procure uma pequena brecha mais clara, segure as nuvens com as duas mãos e abra-as para que o azul do céu apareça...

E se suas mãos não conseguir afastar as nuvens, rompa-as com uma oração sincera e busque conectar-se com o Alto, permitindo que a Luz Divina penetre em seu ser e ilumine definitivamente o seu caminho.

* * *

"Enquanto isso na sala de justiça", como diria a banda mineira Patu Fu,

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final.

Que você possa usar o tempo naquilo que seja realmente urgente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Coincidências

Quantas vezes já não fomos surpreendidos por uma coincidência? 

Você seria capaz de lembrar alguma situação que já tenha acontecido com você? 

E por que será que isso acontece?

Você pensa numa pessoa, e essa pessoa aparece, ou te liga ou faz algum contato.

No exato momento de sair de casa, você esquece alguma coisa e tem de voltar para buscar. E esses breves minutos que te fazem retornar, e via de regra você o faz reclamando de tudo e de todos, te livram de alguma situação de perigo.

Quantos histórias não existem de pessoas que não conseguem embarcar em seus voos programados pelos mais variados motivos, e um acidente aéreo fatal acontece? 

* * *

Muitas vezes a vida está querendo nos dizer alguma coisa com tantas coincidências, e nós não estamos atentos. "Quer que eu desenhe?" - perguntaria a vida.

Havia terminado de ler um livro e estava no difícil processo para selecionar o próximo da lista a ser lido. Na hora do almoço, dei uma passada na livraria e estive com um livro nas mãos. Sabe aquela atração inexplicável que te leva para os confins da livraria e, sem que ninguém te ajude, chega as suas mãos um livro inesperado? Uma verdadeira atração fatal! Pois bem, eu não ouvi esse primeiro sinal, e não levei o livro.

Na tarde do mesmo dia, recebo um tweet da editora do citado livro, convidando para a leitura de um capítulo desse mesmo livro que estava mais cedo em minhas mãos.

Na sequência, um novo tweet, dessa vez do site TED.com, chamando para uma palestra dizendo: "e se nós procurarmos por aquelas pequenas coincidências verdadeiramente fascinantes que acontecem em nossas vidas?" Assista a palestra aqui.


Antes que estivesse andando pela calçada e o livro caísse em minha cabeça, voltei à livraria para levá-lo para casa.

E você certamente está morrendo de curiosidade: qual será o título!?

Calma! Eu vou te dizer! Antes porém, queria que você pensasse nessas coincidências que ocorrem diariamente em nossas vidas ok?! Fiquem atentos, elas podem nos ajudar bastante. Compartilhe ai com o mundo um momento desses vai!

Bem, após concluído o parágrafo linguiça acima, vamos ao título: mas preste atenção em quão sugestivo é esse título!! Ok, vamos lá:


Óbvio que depois de tanta coincidência, espero que a leitura seja compensadora. Aí, volto aqui para falar mais um pouco.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Invenção e inventário

Pense agora em uma invenção que você não consegue viver sem ela.

Será que há dez anos atrás você era assim tão dependente dessa invenção?

E será que daqui a dez anos, essa invenção que hoje lhe é imprescindível, não estará completamente esquecida e obsoleta?

Agora diga para a gente, que invenção foi essa que você pensou? Deixa ai nos comentários. Quem sabe daqui dez anos a gente não volte aqui para relembrar e rir das coisas.

* * *

Certo dia, mexendo no computador, minha filha perguntou onde estava a letra A: e B:, já que os discos do computador começavam com C: e D:

Mostrei fotografias de disquetes para ela saber do que se tratava. Um era maior que um pão de forma, e tinha a estupenda capacidade de armazenar 360 kbytes (o que não dá hoje para guardar sequer uma foto).

Quando surgiu seu sucessor, com a capicidade 4x maior, ou 1.4 Mbytes (não cabe sequer uma música hoje), foi uma revolução e tanto... E nos discos externos de hoje, que substituem os pendrives, caberiam cerca de 1 milhão de disquetes.

E provavelmente daqui dez anos, vamos rir dessa capacidade de hoje também.

E por falar nisso, já parou para pensar no papel da tecnologia?

Facilitar a vida, ganhar tempo, aumentar a produtividade, podem ser alguma das respostas. Mas não parece um paradoxo?

Se ela serve para que ganhemos tempo, por quê estamos sempre a reclamar que não temos tempo?

Veio para facilitar nossa vida, e muitas vezes nos tornamos escravos dela (lembra da pergunta inicial? Não consegue viver sem ela?). E a lembrar que há bem pouco tempo atrás, vivíamos normalmente sem ela.

Certamente, a economia do tempo é notória. Então esse tempo extra que ganhamos com o advento da tecnologia, precisa ser melhor empregado, não acha?

Antigamente para se fazer um bolo, pergunte aos mais antigos:
- não tinha batedeira (batia-se na mão);
- forno era a lenha (hoje é vintage ter um);
Hoje a massa já está pronta na prateleira...

E para se comunicar? Cartas.
- escrevia-se em papel;
- usava-se Correios;
- a resposta demorava dias;
Hojé é instantâneo.

Então, para onde está indo esse tempo que ganhamos com o advento da tecnologia? 

Pense em como tem empregado esse tempo extra que ganhou. Se ele está te libertando ou escravizando.

Já pensou em estudar algo que você gosta e nunca teve oportunidade (porque não tinha tempo)? Música, arte, línguas, fazer uma faculdade, um trabalho voluntário.

Pense nisso, ainda temos tempo.

* * *

Falando em tecnologia, em nossa infância, tínhamos em casa um videocassete (lembra disso?). 

Curioso que o controle remoto dele era com fio. Sim, controle remoto com fio!

E pagava-se multa na locadora, se entregasse a fita sem estar rebobinada (gargalhando).

Então eu e minha irmã, estávamos fazendo uma lista, daquilo que cada um iria herdar.

Por ser o mais velho, comecei escolhendo o videocassete. Ela escolheu o carro (um Gol 84).

Surpreso com a audácia e esperteza dela, escolhi o Fusca (78).

Ao passar pela gente, e vendo nossa discussão, nosso pai perguntou o que estávamos fazendo. Ao saber do inventário antecipado, pega a lista e passa o sermão:

- Tudo que temos, foi com o esforço do nosso trabalho, meu e de sua mãe. Seu avô não deixou nada para a gente. A única coisa que ele nos deu de herança foi a educação, e ele tinha a certeza que com ela conseguiríamos tudo. - E continuou:

- Eu aprendi muito bem a lição, e, de igual forma, tudo que deixarei para vocês, será educação.

E isso é uma marca que ninguém apaga.

Então, diante de tantas invenções e tecnologias, que são transitórias, vale pensar:

- O que você está deixando como inventário? Isso sim, é permanente.





segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Luz nos olhos

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (José Saramago)

Você consegue ler o que está escrito aqui. Muitas pessoas não conseguem. Por quê?

Por serem cegas, analfabetas, sem acesso à Internet, desinteresse, desconhecimento e tantos outros motivos.


Mas você pode ver, e quantas vezes já agradeceu por isso?
 

Semana passada apontamos uma deficiência no ouvir, e como anda a nossa visão?
 
Pelo simples fato de poder ver, você tem um mundo de cores e formas a sua volta. E por esse motivo, você também pode ler. Tem feito isso?
 
A citação acima está no "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Um excelente livro, conhece?
 
Gosto dessa gradação que Saramago propõe à visão. A depender da profundidade, olhamos, vemos, reparamos.
 
Muitos passam pela vida apenas olhando. Subutilizam sua capacidade visual, têm visão periférica, superficial.
 
Outros conseguem ver um pouco além do óbvio.
 
E poucos dominam a arte de reparar. (Qual o sentido que você pensou para esse verbo?)
 
Como um exercício nessa semana, aguce um pouco mais o olhar para as coisas que estão a sua volta. 

Por exemplo, procure pequenas coisas pela paisagem enquanto se desloca de casa ao trabalho. Detalhes de arquitetura são um ótimo começo.
 
Você vai ver tanta coisa que nunca havia notado que existia. Faça o teste e se surpreenda.
 
E na medida que vamos aperfeiçoando nosso olhar, começamos a ver melhor. E com essa visão que vai se aprimorando a cada dia, passamos a compreender muitas coisas ao redor sem sequer precisarmos ouvir. Os olhos falam.
 
E chegaremos sim ao nível do reparar. Não no sentido de notar, criticar, mas no sentido de ajudar.
 
Saramago em seu livro nos mostra o quão baixo podemos chegar enquanto humanidade. Vale ler e refletir sobre isso. Afinal, isso somos nós. E será que nós somos assim mesmo?
 
Vamos aproveitar que podemos ver, e vamos ler mais. Deixe aí nos comentários uma dica de um livro que foi inesquecível para você. Quem sabe com isso você não ajude outras pessoas? Lembra da dádiva circulante?
 
Deixo o "Ensaio sobre a cegueira" para você. Se ainda não leu, vai às cegas conferí-lo. Não busque ler nenhuma resenha antes. Apenas olhe, veja e repare.
 
Vamos, desde já, exercitar o olhar, ter olhos bons.
 
"A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz" (Mateus 6:22)


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Letra e música

Nesses dias de Rock in Rio, vamos falar um pouco de música.

Você costuma prestar atenção nas letras das músicas que canta?

Se sua resposta for não, não se preocupe, você faz parte da maioria da população.

A música também é uma forma de comunicação, e como tal, sempre existirá uma mensagem a ser transmitida entre um emissor (compositor/cantor) e um receptor (ouvinte). E por quê não prestamos atenção nisso?

Quando lemos um livro, e não conhecemos determinada palavra, costumamos consultar um dicionário (talvez google) para enriquecer nosso vocabulário.

Você se lembra da última vez que uma música lhe fez buscar um dicionário? Será que isso já aconteceu alguma vez? E será que não existem palavras que desconhecemos nas letras das músicas?

Pois bem, o convite dessa semana é para prestarmos mais atenção nas mensagens que nos chegam através da música. Sabermos efetivamente o que estamos cantando. Pode acreditar que você canta e gosta de muita música sem sequer saber o que ela está querendo te dizer (isso sem falar nas músicas em outros idiomas).

Para dar um exemplo, nessa semana ouvi uma música dos Titãs que não conhecia, e a mensagem da letra era muito especial, veja só.

* * *

Pela Paz (Titãs)

Você espera sempre mais
Você não se conforma
Você não se satisfaz
Todo mundo diz acreditar na paz

E você acredita ou não?
E então, o que você faz pela paz?
O que você faz pela paz?
O que você faz pela paz?

Todos são capazes da guerra
Mas ninguém luta por você
Você ainda está sozinho
Ninguém acredita em ninguém

E você acredita ou não?
E então, o que você faz pela paz?
O que você faz pela paz?
O que você faz pela paz?



Percebe o quão fantástico é o processo de dar vida a uma letra? Aí que entra a música.
Que tal ouví-la e sentir isso?

Enquanto ouvia no rádio a música dos Titãs, e refletindo na pergunta "O que você faz pela paz?", a resposta veio na lembrança de outra música, de Nando Cordel.


Paz pela Paz (Nando Cordel)

A paz do mundo
Começa em mim
Se eu tenho amor,
Com certeza sou feliz
Se eu faço o bem ao meu irmão,
Tenho a grandeza dentro do meu coração
Chegou a hora da gente construir a paz
Ninguém suporta mais o desamor

Paz pela paz - pelas crianças
Paz pela paz - pelas florestas
Paz pela paz - pela coragem de mudar.
Paz pela paz - pela justiça
Paz pela paz - a liberdade
Paz pela paz - pela beleza de te amar.

A paz do mundo
Começa em mim
Se eu tenho amor,
Com certeza sou feliz
Se eu faço o bem ao meu irmão,
Tenho a grandeza dentro do meu coração
Chegou a hora da gente construir a paz
Ninguém suporta mais o desamor

Paz pela paz - pro mundo novo
Paz pela paz - a esperança
Paz pela paz - pela coragem de mudar.
Paz pela paz - pela justiça
Paz pela paz - a liberdade
Paz pela paz - pela beleza de te amar.



* * *


Percebeu como a música é uma comunicação? Como é importante estarmos atentos? E principalmente, precisamos saber o que estamos cantando!

Veja só o que acontece quando não estamos atentos à mensagem que a música transmite:


"Trágico se não fosse cômico". Uma procissão ao som de "Ai se eu te pego".

* * *

Voltaremos ao tema em algumas semanas, vou dar um tempo para você ouvir músicas e prestar um pouco mais de atenção nas letras. Quem sabe até você não procure um dicionário?

Enquanto isso, pense em "O que você faz pela paz?"

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Razão e felicidade

Se o que lhe veio a mente ao ler o título da postagem foi alguma lembrança do livro de Jane Austen, Razão e Sensibilidade, temos algo em comum: compulsão por livros.

Mas hoje Jane Austen que me perdoe, vou substituir sensibilidade por felicidade.

Você prefere ter razão ou ser feliz?

Já ouviu essa pergunta alguma vez?

Já parou para pensar no número de escolhas que fazemos durante um dia? São muitas. Felizes umas, tristes outras, importante todas.

Mal abrimos os olhos e já estamos fazendo escolhas: levanto ou faço preguiça? Desligo o alarme ou uso o soneca? E seguimos fazendo escolhas, muitas vezes inconscientemente, até o final do dia.

Mas e quando a escolha nos remete a essas duas opções: ter razão ou ser feliz? 



Geralmente precisamos decidir rápido, e muitas vezes não temos tempo para pensar. 

Semana passada, fui infeliz numa dessas escolhas de bate-pronto. Preferi razão a felicidade. Refletindo depois sobre o ocorrido, lembrei de duas histórias sobre o tema, que reproduzo abaixo:

* * *

Texto 1


Por que nossas ideias precisam sempre prevalecer?

Será que precisamos vencer todas as discussões que travamos?

Dale Carnegie, escritor e orador americano, autor do best seller: Como fazer amigos e influenciar pessoas, narra uma experiência particular muito rica.

Conta ele:

Certa noite, estava num banquete dado em honra a um homem muito importante.

Durante esse banquete, um outro homem que estava sentado ao meu lado contou um caso que girava em torno da seguinte afirmativa: "Há uma Divindade que protege nossos objetivos, traçando-os como os desejamos."

Ele mencionou que tal frase era da Bíblia.

Enganara-se. Eu sabia disso. Sabia, e com toda a certeza. Não podia haver a menor dúvida a respeito.

E assim, para conseguir um ar de importância e demonstrar minha superioridade, tornei-me um importuno e intrometido encarregando-me de corrigi-lo.

Acionou suas baterias. "Quê? De Shakespeare? Impossível! Absurdo! Essa frase era da Bíblia." E ele conhecia.

O homem que narrava o caso estava sentado á minha direita, e o senhor Frank Gammond, meu velho amigo, à minha esquerda.

O Sr. Gammond havia dedicado anos ao estudo de Shakespeare. Assim, o narrador e eu concordamos em submeter a questão ao Sr. Gammond.

Este escutou, cutucou-me por baixo da mesa e disse: "Dale, você está errado. O cavalheiro tem razão, a frase é da Bíblia."

De volta para casa, disse ao Sr. Gammond: "Frank, eu sei que a frase é de Shakespeare."

"Sim, naturalmente", respondeu. "Hamlet, ato V, cena 2. Mas nós éramos convidados numa ocasião festiva, meu caro Dale.

Por que provar a um homem que ele estava errado? Isso iria fazer com que ele gostasse de você? Por que não evitar que ele ficasse envergonhado?

Não pediu sua opinião. Não a queria. Por que discutir com ele? Evite sempre um ângulo agudo."

O homem que me disse isso ensinou-me uma lição inesquecível. Eu não só tinha embaraçado aquele contador de histórias, como também o meu amigo.

Teria sido muito melhor se eu não tivesse sido argumentativo.


Texto 2


Por que queremos sempre ser os donos da verdade?

Oito da noite numa avenida movimentada.

O casal já está atrasado para jantar na casa de alguns amigos.

O endereço é novo, assim como o caminho, que ela conferiu no mapa antes de sair.

Ele dirige o carro. Ela o orienta e pede para que vire na próxima rua à esquerda.

Ele tem certeza de que é à direita. Discutem.

Percebendo que, além de atrasados, poderão ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida.

Ele vira à direita e percebe que estava errado.

Ainda com dificuldade, ele admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno.

Ela sorri e diz que não há problema algum em chegar alguns minutos mais tarde.

Mas ele ainda quer saber: Se você tinha tanta certeza de que eu estava tomando o caminho errado, deveria  insistir um pouco mais.

E ela diz: Entre ter razão e ser feliz, prefiro  ser feliz.

Estávamos à beira de uma briga, se eu insistisse mais teríamos estragado a noite.

Certamente uma sábia decisão.

Muitas vezes nós perdemos oportunidades de viver momentos felizes só porque queremos provar que estamos com a razão. Ou, pelo menos, pensamos que estamos.

De maneira alguma defendemos a omissão ou o não uso da razão, mas tão somente o uso da razão com sensibilidade.

Quantas amizades já destruímos por causa de uma obstinação em defender um ponto de vista?

Quanta energia já gastamos na defesa de uma ideia, desejando que os outros a aceitem a qualquer custo?

Quanto tempo perdido na elaboração de argumentos para convencer alguém de que temos razão em algum ponto?

Será que vale a pena essa maneira de ser?

Será que vale a pena perder a paz na tentativa de provar que estamos certos?

Não seria mais sábio de nossa parte optar pela harmonia, em vez de brigar por causa de pequenas questões irrelevantes?

É evidente que há momentos em que devemos defender nossa posição, e seria bom que o fizéssemos sem nos perturbar, sem sair do sério.

Mas o que geralmente acontece é que levamos as discussões, que deveriam ficar no campo das ideias, para o campo pessoal. E nos irritamos.

É importante considerar que para divergir não precisa dissentir.

Podemos discordar de alguém e ainda assim preservar a amizade e o respeito por esse alguém.

Pense nisso quando se apresentar uma situação em que você tenha que fazer essa opção e se questione, antes de agir:

Será que vale a pena perder a calma para defender esse ponto de vista?

Será que o momento certo para expor minha opinião é agora?

Será este o momento de impor minhas razões?

Talvez se prestássemos mais atenção em nossas palavras e nos porquês de nossas discussões frequentes, perceberíamos que, na maioria das vezes, poderíamos optar por ser feliz e ter paz, em vez de ter razão.

Considere que as energias gastas em discussões infrutíferas podem lhe fazer falta na manutenção da saúde física e mental, e busque usá-las de maneira útil e inteligente.

Afinal, todos os seus esforços devem ser usados em prol da harmonia comum, para que haja paz ao seu redor.

E lembre-se, sempre, antes de qualquer desgaste, de questionar: Quero ter razão, ou ser feliz?

* * *

Minha filha, você, com apenas 8 anos, ensinou uma grande lição ao papai nessa semana: 

"É melhor ser feliz! Sempre!"

Muito obrigado!


Fonte:




segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O privilégio de um Pável

Todos temos um Pável em nossas vidas.

Sim, aquele professor inesquecível. Quando você pensa neste professor, quem lhe vem à mente?

E se esse não foi o nome lembrado acima, certamente você se recorda do nome do professor que lhe alfabetizou, não?

* * *

Este é um assunto que muitos têm dificuldades em conversar. Mas por quê? Se é a única certeza que temos na vida.

Se é difícil conversar entre adultos, imagina para dar a notícia da morte de um ente querido para uma criança?

Eis que entra o educador inesquecível, o Pável.

* * *


A sala ainda estava com as carteiras vazias. Alunos em algazarra aguardavam a chegada do professor de Desenho. A metodologia adotada para aquele tipo de aula era a razão principal do sucesso das atividades relacionadas à matéria, sempre dentro de uma abordagem diferente, que surpreendia o aluno pela novidade do tema e pela criatividade do mestre.

Desde o início da carreira no magistério, ele buscou na originalidade a forma mais adequada de ensinar. As aulas que ministrava eram disputadas não só pelos alunos, mas também por funcionários e diretores, que sempre encontravam alguns minutos de folga para sentarem, no fundo da sala, a fim de aprender um tanto mais com o agora já experiente professor.


Naquele dia, não só o amigo da sabedoria encontrava-se aflito, mas também todos os que se preocupavam com a saúde de uma colega, igualmente professora, internada dias antes com graves problemas orgânicos. No hospital, os médicos aplicavam todos os recursos disponíveis, mas as condições da doente já estavam precárias. A jovem mulher, mãe de duas crianças, perdia rapidamente a resistência, deixando fluir os últimos liames de vida.

Assim que chegou à sala, o amigo dos alunos não conseguiu ocultar a preocupação que sentia pelos familiares da colega de profissão. Debateu com os presentes os conceitos de saúde e doença, bem-estar e desesperança, e encerrou as atividades para se dedicar mais intimamente aos parentes da professora enferma.

Na madrugada seguinte, a mulher sentiu chegar o instante do rompimento dos laços sutis que ainda permitiam que a vida vibrasse naquele corpo físico. A partida aconteceu serenamente, em contraste com as difíceis horas de dor ocorridas pouco antes.

Logo pela manhã, as primeiras impressões da saudade misturavam-se às incertezas quanto ao lar prematuramente desfalcado. Parentes e amigos aguardavam na casa a chegada do corpo e o início do velório. Na cozinha, os dois filhinhos, João Carlos com cinco anos, e Ana com apenas um, saboreavam o café da manhã, alheios ainda ao acontecido.

A angústia da informação aos filhos sobre a morte da mãe tomava conta dos presentes. Quem daria a notícia? As crianças seriam poupadas da cena comovente, ou seriam levadas para outro lugar? O professor, atento, lembrou que o afastamento dos pequenos poderia ser motivo de revolta posterior, quando descobrissem que foram impedidos de um último contato com a presença física da mãe.

Convidado pela família a dar a notícia a João Carlos, o mestre aceitou a incumbência e, minutos depois, chamou o inocente menino a um quarto, para uma conversa.


— João Carlos, você gosta de sua mãe?
— Muito.
— Acha que ela cuida carinhosamente de vocês?
— Ela é muito legal.

— Você já ouviu falar em anjo da guarda?
— Já. Eu acho que tenho um.
— O que é que um anjo da guarda faz?
— Cuida das crianças desprotegidas. Acho que cuida dos adultos também.

— Você e sua irmãzinha são desprotegidos?
— É claro que não. Até vovó e a tia cuidam da gente...
— O que é mesmo um anjo dá guarda?
— É quem cuida das crianças tristes, dos bebês abandonados, protege os meninos arteiros e... ora, um anjo da guarda faz muita coisa necessária.

— Você vê seu anjo da guarda?
— Não. Ele é que nem Jesus. Os nossos olhos, do jeito que são, não conseguem vê-lo.
— Eu tenho uma informação. É uma notícia para você. O mundo, como sabe, está cheio de criaturas tristes, cheio de crianças levadas, repleto de meninos abandonados. Por isso, lá no céu, estão precisando de mais anjos da guarda, para cuidar de tanto serviço.
— Estão precisando de mais anjos da guarda, lá no céu?
— Estão.

— E como é que fazem para conseguir?
— Pedem ajuda às pessoas grandes, aqui na Terra.
— É por isso que muita gente morre? Para ser anjo?
— Isto mesmo. Agora, preste atenção. Você sabe quem é o anjo mais importante que vai nascer?
— Ele saiu aqui da Terra? Saiu hoje?
— Saiu.

— Foi alguém que morreu?
— Precisamos tomar cuidado com a palavra morreu. A vida existe sempre. Só o corpo é que morre.
— Este anjo que vai nascer, hoje, antes do corpo morrer, ele ficou no hospital?
— Ficou. Estava se preparando.

— Tio, mulher pode ser anjo da guarda?
— Pode, meu querido.
— Onde é que está a mamãe?
— Você mesmo quer pensar e responder?
— Ela foi ser anjo da guarda?

— Onde é que está o corpo dela?
— O corpo ainda está no hospital.
— E ela? Onde é que está?
— A caminho do céu... .

— Acho que vou chorar...
— Pois chore. Pode chorar. Chorar é coisa de homem.
— As lágrimas suavemente gotejaram. O professor insinuou:
— Chore com amor, chore com carinho. Seja delicado para mostrar sua saudade, chorando com ternura.

Os dois conversaram ainda por alguns minutos, sobre como alguns adultos, quando em pânico pela perda de algum ser querido, acabam por interferir na harmonia mental dos recém-chegados ao plano espiritual. João Carlos tinha um raciocínio muito rápido e lógico, parecendo compreender, por intuição, o importante papel que teria de cumprir, durante aquele difícil dia, ao conter a aflição dos mais velhos.

Antes de sair do quarto, ele abraçou docemente o amigo de sua mãe e disse:— Vou chorar mais um pouquinho. Só um pouquinho...

Durante o velório, pediu com delicadeza que as pessoas se controlassem, a fim de que a mamãe pudesse chegar em paz lá no céu. O professor, sofrido mas com o sentimento de compaixão pelo auxílio prestado ao bem-estar de todos, pensou em guardar mais uma lição, que contaria depois para os aprendizes: saudade com dor não pode. Só pode saudade com amor! (A história narrada é real, bem como o sábio professor que a vivenciou. Ela se passou em Juiz de Fora - MG, com o mestre Edson Pável Bastos).

* * *

Parabéns ao novo anjo da guarda que surge na abóbada celeste.

Nossos agradecimentos pelos anos de convivência, por tantos exemplos e ensinamentos deixados.

Goze agora do equilíbrio e da harmonia de consciência, típicos daqueles que souberam cumprir retamente com os seus deveres.

(Fonte: Vozes do Espírito - Carlos Augusto Abranches)