terça-feira, 1 de novembro de 2016

O autógrafo do poeta

Em um período de minha infância, morei no bairro da caixa d´água, na rua Gentil Viera de Moraes, de frente para a casa do poeta Leir Moraes, em Rio Bonito.

Seus filhos, Nando e Daniel, faziam parte da nossa turma. Era um tempo em que as crianças brincavam o dia inteiro na rua, e só voltavam para casa  para dormir, esgotadas.

Em uma noite qualquer daquele tempo, não lembro se brincávamos de polícia e ladrão, bandeirinha, taco, ou qualquer outra dessas que só quem teve infância sabe do que se trata, aconteceu uma revoada da molecada para a casa do poeta. Fui envolvido pelo arrastão, e corri junto deles sem saber o motivo daquela movimentação repentina.

Formou-se uma fila na entrada da sala, e pensava que o Leir iria distribuir alguma guloseima para a turma.

Perguntei a quem estava em minha frente qual seria o motivo da algazarra. Ao que ele responde que o candidato a prefeito estava presente na casa do poeta, e estávamos ali reunidos para pegar um autógrafo.

Ao chegar minha vez na fila de estar frente a frente com a celebridade, Alcebíades Moraes Filho, peguei um guardanapo na mesa e o entreguei ao candidato. Mantivemos um breve diálogo:

- O que você deseja?

- Um autógrafo.

Ele me olha desconfiado, em seguida olha para o poeta e diz:

- Mas o famoso aqui é ele, pega um autógrafo dele - e aponta para o Leir.

Eu acho graça daquela informação, respondo:

- Mas ele a gente vê todos os dias, quero o seu.

E ganhei um autógrafo de Bidinho.

* * *

Fiquei com esse episódio na memória. Perdi a chance de ter um autógrafo de Leir Moraes...eu que me sentia tão íntimo de sua casa.

Trinta anos se passaram, e em um dia em que caminhava pelo centro do Rio de Janeiro, passei por um banca de jornal que também vendia livros antigos, e deparei com um livro do Leir na vitrine da banca. Era o "Contos da casa apagada", e estava em bom estado de conservação.

Era daqueles dias de calor insuportável no centro da cidade, e eu só estava com cinco reais no bolso. Iria arriscar entrar na banca e perguntar o preço do livro. Se fosse mais do que possuia, compraria uma água para matar a sede.

Entro na banca, e pergunto ao jornaleiro, forçando uma depreciação do produto:

- Aquele livro amarelado ali fora, o da casa apagada, quanto está?



Ele faz um suspense, coloca o dedo na cabeça tentando lembrar que livro seria, sai da banca e vai em direção à vitrine, na lateral da mesma.

- Não leia esse livro a noite, pode ter insônia - sorri com o bom humor do comerciante.

Estava ansioso, esperava a informação sobre o preço...

- É seu por cinco reais. - Diz o jornaleiro.

Respiro aliviado... mas a sede era implacável.

Ao pagar o livro, explico-lhe minha estratégia, de comprar água se o preço do livro estivesse além das minhas posses na ocasião.

Ele recebe o dinheiro, me entrega o livro, e junto dele traz uma garrafa de água mineral, dizendo:

- Minha mãe me ensinou que nunca devemos negar água a ninguém. Outro dia você passa por aqui e paga a água.

Agradeci a gentileza, tomei um gole de água e abri o livro... e na primeira página estava uma dedicatória, assinada pelo poeta.

"Ao amigo Ely, um abraço do Leir", datada de 1992.

Pronto, consegui o autógrafo do poeta, negligenciado no passado.

* * *

Contei o fato acima - que não é peça de ficção - durante o Tributo a Leir Moraes, evento de resgate da memória do poeta, organizado pelo grupo "por amor a Rio Bonito", que ocorreu na residência do poeta no último dia 29 de outubro, não permitindo deixar passar em branco as comemorações referente ao dia do Poeta (4 de outubro, aniversário do Leir). Já que a lei não é cumprida pelo poder público, a sociedade civil faz a sua parte.

Ao final do encontro, tia Carminha - que ocupa atualmente a cadeira deixada por Leir Moraes na Academia Fluminense de Letras, cadeira esta que tem por patrono B. Lopes, outro ilustre poeta de Rio Bonito - uma das organizadoras do evento, com a delicadeza que lhe é peculiar, me pergunta:

- Ricardo, eu fiquei com uma curiosidade. Você voltou para pagar a água?

Rimos muito com a pergunta. E eu lhe respondi:

- Assim como a mãe do jornaleiro lhe ensinou a não negar água a ninguém, minha mãe ensinou que devemos ser honestos em todas as circunstâncias. Voltei sim. Dívida quitada.

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